A Carta- Capítulos

Era uma tarde de verão, as meninas brincavam no quintal e seu irmão mais velho estava esperando a namorada no portão. Seus pais estavam deitados em uma rede na pequena varanda de sua querida e amada casinha.
Horas se passam e os tios das meninas começam a chegar com todos os primos para um divertido churrasco ao luar. Em época de férias a crianças se divertem e com aquelas não era diferente, logo arrumaram uma mangueira para aliviar a brisa quente de um dia ensolarado.
A mãe arruma a mesa ao anoitecer, as crianças já estão de banho tomado e a carne está no fogo. Fernando o filho mais velho toca violão para a sua namorada que finalmente havia chegado.
As duas meninas Ana e Kety brincam com os primos Renato e Matheus, a mãe Alice vai até um pequeno quartinho de bagunças e trás uma caixa cheia de fotos antigas.
Remexendo encontra um pequeno envelope laranja, do lado de fora estava a sua letra. “Abra apenas quando passar dos trinta.” Olhou aquilo e deu risada ela havia escrito quando tinha quinze anos. Então ela se levantou e leu em voz alta:
Rio de Janeiro 21 de outubro de 1985
Oi Alice do futuro, como anda a sua vida?
Eu estou muito curiosa para saber como vai ser a minha vida de agora em diante, como você não pode sair do futuro para me contar e nem eu posso avançar até ai, deixarei uma mensagem para que se lembre de como era a sua vida.
Bom eu não suporto matemática, amo cozinhar, a minha irmã mais nova está me dando nos nervos... O cachorro mordeu o pé do vizinho e armou-se um barraco, mas você não vai querer lembrar disso .
Tem um menino na escola que está me paquerando e eu realmente gosto dele, seu nome é André, tomara q você esteja casada com ele.
Aos meus filhos quero dizer  que mesmo sem existir eu já amo vocês. Um beijo a todos.
                                                                                   Alice 15 anos.
Todos se encantaram com a pequena declaração e André que já a amava se apaixonou mais uma vez.
Muito tempo se passou desde aquela tarde de verão quando Alice encontrou a carta escrita por ela mesma.
O fato é que ela se lembrava de ter escrito pelo menos umas cinco cartas, porém após tantos anos Alice não se lembrava o que havia escrito e nem onde essas cartas foram parar... “Podem estar nas caixas da mudança que ainda não foram desarrumadas” pensou, mas quando remexeu em tudo apenas conseguiu achar mais fotos antigas e algumas baratas.
Triste e desanimada Alice foi preparar o almoço, pois logo as crianças iriam chegar da escola. Mais tarde seu marido chegou do trabalho e deu a ideia de procurar em sua antiga casa, esta casa  não  tinha habitantes desde quando ela morava com seus pais.
Estava resolvido, no fim de semana eles iriam passar lá para procurar por mais cartas. Vendo sua esposa um pouco mais feliz André se sentiu muito bem, e foi terminar de construir a casinha de bonecas das meninas.
Enquanto isso Alice sentou-se na varanda para observar seu marido trabalhar, ao lado dela estava uma folha de papel e uma caneta, então começou a “responder” a sua própria carta.
Rio de Janeiro, 16 de Março de 2010   
Oi  Alice do passado,  já sei que você está bem.
Eu sei que não existem formas de você ler o que escreverei, porém o que te diria se eu pudesse voltar ao passado?
Bem, eu tenho três lindos filhos Fernando de 15 anos, Ana de 9 anos  e Kety que completará 7  amanhã. O meu rapazinho é a cara do pai  e sim eu casei com o André.
Eu me formei em medicina e me especializei em pediatria, pois é quem diria, mas não estou trabalhando ultimamente. André trabalha como engenheiro ele quem projetou a nossa casinha não é legal?
Bom já não sei mais o que lhe escrever, com amor e carinho Alice do futuro ou presente.
Alice então ficou ali sentada, imaginando onde estariam as outras quatro cartas.
No outro dia de manhã Alice telefonou para sua mãe e pediu a chave de sua antiga casa, curiosa sua mãe perguntou para que ela queria entrar numa casa velha e abandonada, então Alice a explicou o mistério das cartas e disse que provavelmente estariam lá, sua mãe logo se animou e disse “coloca mais água no feijão, pois eu to indo ai!” Dando uma risada então ela desligou o telefone.
Passados exatamente 30 minutos dona Ana mãe de Alice bateu na porta da casa de sua filha, Alice nem a convidou para entrar, as duas saíram afobadas como se fossem duas adolescentes coisa que já não eram há muito tempo.
Uma hora depois chegaram a sua antiga casa, um lugar que em algum momento foi aconchegante e encantador, mas que agora o sobrado de dois andares estava abandonado e sujo.
Olhando para o quintal Alice começou a se lembrar de sua infância e logo se apressou em procurar no lugar que desconfiava estar.
Atravessando o quintal existia uma espécie de depósito com algumas caixas velhas, ela então correu e quase tropeçou num pedaço velho de madeira, rapidamente remexeu nas velhas caixas, ás vezes espirrava e outra tossia, e sua mãe ficou analisando de longe ansiosa para que a filha encontrasse logo as tão preciosas cartas.
Alice olhou quase todas as caixas, porém havia uma caixinha amarelada bem no cantinho quase tímida, então Alice estendeu as mãos com um chinelo preparada para as baratas que saíram desesperadas como se o mundo estivesse desmoronando, o que na verdade faz sentido, pois aquela caixinha era o mundo delas.
Dona Ana virou a cara morrendo de nojo e Alice gritava sacudindo a pequena caixa era uma mistura de risos com muito nojo uma verdadeira guerra contra aqueles asquerosos insetos “corra mamãe! Salve-se” Alice gritava e ria, e sua mãe respondia “não vou sem você minha filha” dona Ana agarrou a primeira coisa que pode e foi ajudar sua filha.
Por fim em meio a toda aquela bagunça Alice avistou o tão valioso envelope laranja no fundo da caixa então ela disse “morram criaturas!” Jogou a caixa no chão pegou o envelope e saiu correndo com sua mãe, quando tudo ia bem olhou para o portão e viu vários ratos.
Parecia que as baratas estavam chamando reforços Alice olhou para o lado e disse a barata ”isso foi golpe baixo” sua mãe que não brincava mais estava começando a se assustar.
Alice pegou a sua mãe e saiu correndo pisando em barata e chutando ratazanas e muito feliz saiu daquele lugar, se um dia ela for voltar para procurar mais cartas vai chamar um dedetizador.
Depois do susto Alice levou sua mãe para casa e prometeu que não iria voltar para aquele lugar antes de uma boa limpeza.
Rio de Janeiro 25 de Outubro de 1985
Olá Alice do futuro, bem era para ser apenas uma carta mais eu não conseguir colocar em uma carta só tudo o que eu quero contar e nem tudo o que eu gostaria de saber, então vou te contar como foi meu dia.
André me chamou para caminhar no parque, o que foi muito bom, pois ele me beijou e depois ficou da cor de um pimentão claro que eu nem liguei alias achei muito fofo, depois disso minhas amigas piraram e eu não consigo parar quieta acho que meus pais estão desconfiando.
Uma coisa que gostaria de saber é como andará as minhas duas amigas Renata e Sara, essas duas criaturinhas fazem parte da minha vida espero que você ainda mantenha contato
Ah! Mais uma coisa, deixar essas cartas em casa vai ser muito fácil para você encontrar as cartas, e eu escrevo para você lembrar de como era sua juventude. Bem eu sempre quis ser exploradora e encontrar tesouros e as cartas serão o seu tesouro por isso vou lhe dar uma pista em uma frase “o amor é como uma semente que com o tempo cresce fica forte e traz grandes frutos”
Espero que você as encontre, mande um beijo para as crianças.
                                                                                                                                     Alice 15 anos.
E assim Alice terminou de ler para todos de sua família a tão preciosa carta, Fernando olhou para seu pai rindo e disse:
“Vermelho como um pimentão?”
Todos que estavam à mesa riram, porém André estava mais curioso com a ultima parte da cartinha de sua amada...
 “Você travou uma guerra com as baratas para conseguir esse pequeno pedaço de papel e agora vai ter que dar uma de Indiana Jones para ler o resto? Você não tinha nada para fazer não?”
Mais uma vez a gargalhada foi geral, realmente no que ela estava pensando em bolar tudo aquilo, depois ela entendeu:
“Ora a culpa foi sua eu estava tão agitada que bolei uma aventura para depois dos quarenta”
“Você irá chamar a sua mãe outra vez?” Perguntou André.
“Acho melhor não ou ela terá mais um filho”. Respondeu Alice e mais uma onda de risos ecoou pela mesa de jantar.
A pergunta agora na mente de todos é o que significa a tal frase “o amor é como uma semente que com o tempo cresce fica forte e traz grandes frutos”?
Bem isso vamos descobrir mais tarde, pois agora Alice irá cuidar de seu lar.
A Carta capítulo 5   
Uma semana depois Alice voltou a pensar no tal enigma, estava claro que era em alguma árvore, mas onde ela poderia esconder um envelope numa árvore?  Então começou a reler trechos da carta:
“... Uma coisa que gostaria de saber é como andará as minhas duas amigas Renata e Sara...”
- Eu não falo com elas desde a formatura - Disse Alice um pouco triste.
Ela não entendia bem o porquê de mencioná-las na carta, pois ela sabia que após a formatura as duas iriam se mudar para longe e mesmo se mantivessem contato não seria por muito tempo, talvez tenha sido a esperança de continuar conversando com elas ou...
-Elas são a uma parte da pista! – Gritou Alice – Claro o único lugar onde nós três passeávamos era cheio de árvores, êpa cheio de árvores.
Já era alguma coisa, mas mesmo assim o parque em que brincavam não tinha muito lugar para esconder cartas... Alice ficou nesse enigma o dia todo e outro também e depois outro somando uma semana inteira lendo e relendo, até que em um belo dia de sol sua filha foi á um passeio da escola, um lugar no qual Renata, Sara e Alice foram uma vez:
“Ei meninas olhem só – Dizia Renata – Parece que aquele menino como é mesmo seu nome? não tira o olho da Alice...”.
O momento flashback de Alice foi o suficiente para ela se lembrar e ligar a frase... “o amor é como uma semente que com o tempo cresce fica forte e traz grandes frutos” com suas duas amigas.
-Lá foi a primeira vez que realmente te vi e as meninas estavam comigo, e é exatamente nesse lugar em que encontramos... – O marido de Alice respondeu antes que sua amada terminasse.
-Uma caverna!- André começou a rir – Eu me lembro desse dia – Não acredito nisso.
Alice deu uma risadinha e foi correndo preparar as coisas para buscar a tão valiosa carta, e é claro que André foi junto.   
-Uma carta nesse lugar deve ter apodrecido há anos - André disse enquanto dirigia.
-Não se foi bem protegida, espero q dessa vez não tenhamos que lidar com insetos- Alice brincava.
-Meu amor desculpe, mas estamos falando de uma caverna você deve torcer para que os insetos sejam pequenos.
Alice não respondeu, ela estava se perguntando como aquilo foi parar numa caverna. André parou o carro não muito longe da tal caverna.
- Lembra de como encontrou esse lugar?- André perguntou sorrindo
-Claro.
E como ela poderia esquecer...
- O André está-te chamando-Sara dizia rindo
Fui ver então o que ele queria, ele estava me esperando em frente a uma caverna que parecia muito feia.
- Ei Alice não se preocupe vamos vou te mostrar uma coisa-André dizia arrumando seus óculos.
Então entrei lá dentro morrendo de medo de algum bicho, mas estava escuro de mais para eu ver algum, andamos por algum tempo logo vi uma luz, me perguntei se havíamos voltado, porém aqui era bem diferente do outro lado parecia um lindo paraíso com um laguinho que tinha águas cristalinas.
Tinha mais gente lá, contudo eu estava mais do que curiosa para saber o que ele queria comigo então ele pegou minha mão e disse:
 - O amor é como uma semente que com o tempo cresce fica forte e traz grandes frutos, eu gosto de você Alice e hoje eu planto essa semente...
De volta à realidade Alice sorriu para André.
- Você foi muito criativo naquela época.
Ele não entendeu direito, então Alice contou tudo o que havia lembrado principalmente a parte da frase.
- Como pude esquecer isso- ela sorriu
- Como você foi inteligente com esses enigmas, bom agora já sabemos onde a carta está.
Isso era verdade, mas já estava escurecendo então concordaram e procurar ao amanhecer.

A carta capítulo 6

O dia amanhece chuvoso, um péssimo dia, porém nada desanimaria Alice que depois tanto tempo havia enfim decifrado o seu próprio enigma.
Era sábado e as crianças estavam na casa da mãe de André, seu filho mais velho foi ao cinema com a namorada, o que lhes dava o dia inteiro para procurar cartas perdidas. Tudo estava pronto então André e Alice partiram de carro até a caverna muito esperançosos.
- Qual charada você inventou dessa vez hein?- Brincou André
- Eu não me lembro de nada, meu Deus eu estou ficando velha.
- Não me venha com crise dos quarenta agora, se você está ficando velha isso faz de mim um ancião. - André falou teatralmente
- Fico feliz com isso – Alice provocou, e gargalhou imediatamente com a cara de falso ultraje que ele fez.
 Ainda rindo ele parou o carro, os dois foram caminhando juntos até caverna entraram nela, porém estava úmida e com aquele plic ploc de um gotejar, isso deixava ambos com uma vontade enorme de ir ao banheiro.
Caminhando calmamente com uma lanterna André encontrou o caminho certo para o outro lado e acredite estava muito fácil de encontrar parecia diferente bem diferente da última vez que eles foram para lá, o chão estava ficando plano cada vez mais quando encontraram o outro lado não acreditaram no que viram.
O lago se fora dando lugar a uma pequena pracinha, o que deveria ser o paraíso dos namorados, nada muito grande apenas alguns bancos e um caminho de concreto também havia algumas flores, mas o laguinho não estava mais ali.
Bem isso seria um problema mesmo que Alice tivesse enterrado a carta mantida em algum lugar seguro ela provavelmente não estaria mais ali.
Então Alice sentou em um dos bancos e começou a pensar, eu disse começou, pois logo André falou:
-Ei olhe ali – disse ele apontando para uma pequena casinha
 -Achados e perdidos? Você está falando sério? –Alice disse surpresa
-Não custa nada tentar – André concluiu
Alice se sentiu a pessoa mais boba do mundo como ela iria perguntar sobre uma tal carta escrita há muito tempo atrás?
“Oi sabe eu escondi uma carta aqui porque eu não tinha o que fazer, mas agora eu a quero de volta e vocês meio que invadiram o lugar e eu não faço ideia de onde ela foi parar” – Alice pensou e deu risada.
Porém quando chegou lá ela realmente disse isso só que de forma mais educada.
Um homem rechonchudo de cabelos grisalhos e bigode respondeu:
- Eu estou aqui há muito tempo, mas nunca recebi uma carta... – ele disse – Mas se vocês quiserem entrar e procurar.
Então lá foram os dois procurar a carta, eles encontraram de tudo menos uma carta. Alice então voltou a pensar.
-André nós estamos procurando por uma carta, porém cartas rasgam e eu tenho certeza que eu a deixaria em algum lugar seguro... Como um baú ou coisa parecida. – Disse Alice
Ele então levantou e foi falar com o homem de cabelo grisalho, quando André voltou trouxe consigo uma grande, velha e embolorada caixa.
 - Ótimo mais baratas. – Ela brincou.
  -Então estamos chegando perto.
Os dois riram mais uma vez, esse dia estava realmente prometendo. Eles procuraram bastante e sim algumas baratas pularam em Alice, o que tornou o dia mais engraçado ainda.
-Ei eu me lembro daquela caixa ali! – Comemorou Alice
Os dois pegaram ao mesmo tempo o pequeno objeto de madeira, digo pequeno até para uma carta, mas o pequeno e familiar envelope laranja estava lá amaçado, mas estava lá.
   Rio de Janeiro, 25 de Dezembro de 1986.
Oi Alice do futuro como anda a sua vida? Feliz?
Pois a minha não está, é natal e eu briguei com o André e já faz muito tempo.
Eu realmente não o intendo, ele é praticamente uma criança. O problema é que eu realmente gosto dele, mas acho que ele não enxerga isso nossa vida é uma montanha russa uma ora ele diz que me ama outra que não sabe, o fato é que hoje é natal e eu estou sozinha não sei como isso pode se resolver...
Olha nem sei se haverá outra carta, mas eu não vou fazer mais enigmas, porque dá muito trabalho... Se tiver outra ela estará na caixa de correio de minha casa.
Queria tanto saber o futuro... Muito mesmo.
                                                                                 Alice 16 anos.
E assim a carta terminou. Os dois ficaram calados por um bom tempo, pensando... Era óbvio que existiria uma outra carta, pois eles se casaram.
- Vamos temos que ir até a minha antiga casa – Alice se levantou
E André disse:
- Me desculpa
- Ei você não precisava saber disso, nós estamos juntos depois tanto tempo isso é o que importa.
Então ele sorriu, e os dois foram caminhando para o carro, partindo para a última carta.